Não venha suja. Lave-se desse seu amor e venha carne.
Quero você insensível e superficial. Sirva-me louca esses espaços profundos que existem em você, deixando-me preencher suas lacunas com cada pedaço meu que é muscular.
Só tenho meus músculos pra te dar...
Curve-se e me obedeça ao mandar que só se satisfaça com o que eu te ofereço de mim. Gargalhe e deboche da vida e faz dos afetos rasgados suor e desdém.
Mantenha-se insatisfeita e desdobre infinitamente meu eu pelo mundo que é novidade. Me dê outros rostos, tamanhos, odores, vozes, valores, e queira-me ter, sobretudo, por toda a eternidade.
Chegue sentindo-se livre pra ter o que quero que pense que tem, só não se dê conta agora que dessa liberdade você é pra sempre refém... Só me deixa gozar antes.
ArquiLetratura
4 de abr. de 2013
18 de jan. de 2012
Um louco
.
Cansado de estar na clausura do lar, arruei-me para ver como estava a cor do mundo naquela tarde.
Queria ver gentes diversas. Esperava por ver belezas e feiuras; uns e outros; graças e desgraças.
Quando se sai esperando qualquer coisa, tudo parece suficiente.
Pensei que todos ali estavam tão acostumados à normalidade de seus hábitos retangulares, e vi que nada naquela quadradez mundana fazia sentido, que resolvi circularizar.
Enlouqueci aquela tarde.
Despi-me ligeiro.
Descabelei.
Libertei os pensamentos todos.
...
Libertar os pensamentos me fez ver que não havia necessidade de despir e descabelar meu corpo.
...
Retomei a roupa, ajeitei os cabelos e saí com a voz enlouquecida.
Percebi que o louco está na voz.
É delicioso poder enlouquecer. Os olhares te tocam medrosos; os risos debochados viram "debochosos"; Pode-se tudo.
Gritei, chorei, fiz declarações de amor e ódio, protestei, rezei, e ninguém me viu.
Se cansa, deita no chão.
Se quer, pede.
Se é, basta.
Então, depois de um dia inteiro, estafado pela loucura, calei-me. Tomei o caminho de volta para casa completamente são.
Cansado de estar na clausura do lar, arruei-me para ver como estava a cor do mundo naquela tarde.
Queria ver gentes diversas. Esperava por ver belezas e feiuras; uns e outros; graças e desgraças.
Quando se sai esperando qualquer coisa, tudo parece suficiente.
Pensei que todos ali estavam tão acostumados à normalidade de seus hábitos retangulares, e vi que nada naquela quadradez mundana fazia sentido, que resolvi circularizar.
Enlouqueci aquela tarde.
Despi-me ligeiro.
Descabelei.
Libertei os pensamentos todos.
...
Libertar os pensamentos me fez ver que não havia necessidade de despir e descabelar meu corpo.
...
Retomei a roupa, ajeitei os cabelos e saí com a voz enlouquecida.
Percebi que o louco está na voz.
É delicioso poder enlouquecer. Os olhares te tocam medrosos; os risos debochados viram "debochosos"; Pode-se tudo.
Gritei, chorei, fiz declarações de amor e ódio, protestei, rezei, e ninguém me viu.
Se cansa, deita no chão.
Se quer, pede.
Se é, basta.
Então, depois de um dia inteiro, estafado pela loucura, calei-me. Tomei o caminho de volta para casa completamente são.
Aspecto
foi de repente.
um dia acordei e vi que tinham levado embora, para longe mim, o meu futuro.
atordoei-me enlouquecido segurando firme em uma das mãos um passado imenso e encardido com o cheiro impreciso de memória, tentando suster na outra a pequena fumaça colorida e impalpável do presente que me fugia.
o que fiz foi chorar e querer.
decidi abjurar.
fui largando pelo chão o passado grudento e de mil aromas que parecia sorrir e chorar enquanto caía despedaçado. doía o peito e a cabeça rodava e eu só podia pensar no que não tinha mais comigo... um lindo futuro... cheio de cores e inodoro... leve.
sofri ao pensar que tomaram-me algo que desconhecia. algo que queria que fosse. o ainda-a-ser.
mas, de pés, segurando incerto apenas o presente nublado sobre a destra, olhei ao meu redor e vi o quão colorido e de aromas sutis tornava-se aquele meu passado, esparramado sobre o piso, que agora já não me possuía para si.
compreendi que fora um futuro cansado e estatizado pela memória, e decidido pelo presente.
realizar-me estado sem meu futuro e abjurado de propósito do meu passado fez-me querer segurar mais forte o presente que, levado, me foge a todo momento.
o presente... que é o que acredito ter agora.
o pequeno, incerto e monolorífero presente que me enche a mão de nada.
um dia acordei e vi que tinham levado embora, para longe mim, o meu futuro.
atordoei-me enlouquecido segurando firme em uma das mãos um passado imenso e encardido com o cheiro impreciso de memória, tentando suster na outra a pequena fumaça colorida e impalpável do presente que me fugia.
o que fiz foi chorar e querer.
decidi abjurar.
fui largando pelo chão o passado grudento e de mil aromas que parecia sorrir e chorar enquanto caía despedaçado. doía o peito e a cabeça rodava e eu só podia pensar no que não tinha mais comigo... um lindo futuro... cheio de cores e inodoro... leve.
sofri ao pensar que tomaram-me algo que desconhecia. algo que queria que fosse. o ainda-a-ser.
mas, de pés, segurando incerto apenas o presente nublado sobre a destra, olhei ao meu redor e vi o quão colorido e de aromas sutis tornava-se aquele meu passado, esparramado sobre o piso, que agora já não me possuía para si.
compreendi que fora um futuro cansado e estatizado pela memória, e decidido pelo presente.
realizar-me estado sem meu futuro e abjurado de propósito do meu passado fez-me querer segurar mais forte o presente que, levado, me foge a todo momento.
o presente... que é o que acredito ter agora.
o pequeno, incerto e monolorífero presente que me enche a mão de nada.
6 de jan. de 2012
Igual
Tenho sentido poesia para conectar-me a tudo.
Isso é mais fácil, quando não se sabe muito bem como sentir tudo o que se sente.
Cores têm me tocado sinestésicas...
o branco, o azul, o preto não são mais iguais.
Gostos são melhores agora se sentidos na lembrança.
Sabores me afetam mais o pensamento que a língua.
Ver é menos o olhar... como falar em silêncio.
O toque, que inevitavelmente arrepia, colore o meu todo com o cheiro antigo
... o melhor cheiro.
nem sempre o tudo é inteiro.
e eu, que não sei muito bem como sentir o que sinto, poetizo...
Para ser diferente do que fui.
Para o ser igual.
Isso é mais fácil, quando não se sabe muito bem como sentir tudo o que se sente.
Cores têm me tocado sinestésicas...
o branco, o azul, o preto não são mais iguais.
Gostos são melhores agora se sentidos na lembrança.
Sabores me afetam mais o pensamento que a língua.
Ver é menos o olhar... como falar em silêncio.
O toque, que inevitavelmente arrepia, colore o meu todo com o cheiro antigo
... o melhor cheiro.
nem sempre o tudo é inteiro.
e eu, que não sei muito bem como sentir o que sinto, poetizo...
Para ser diferente do que fui.
Para o ser igual.
8 de dez. de 2011
Alcalóide
Minha necessidade nebulosa...
este substrato anestésico que entorpece minha consciência.
Manipulo sua forma para que se adeque à minha anatomia e
observo incrédulo sua alvura e potência.
Quero provar, mas tenho medo de que se acabe.
Toco-lhe com a ponta do polegar úmido e preciso na língua...
(im)ponho-me o sabor.
Sinto seu gosto ácido, doce, rascante, ígneo, amargo, nuance e olorífero.
Quero sentir-lhe este olor... mergulhar em seu perfume. Quero seu cheiro.
Cheiro.
É mágico.
Sinto-me em cada lugar... vejo-me atemporal...
Concentro-me em meu nariz obstruído pela estesia que compromete minha fala, e me ponho em silêncio... um silêncio que me conecta, que me torna íntimo.
E não há mais nada.
Só meu prazer...
A composição artificial que me faz encontrar meu estado natural parece infinita, até que eu acorde... até que eu me ressirva.
este substrato anestésico que entorpece minha consciência.
Manipulo sua forma para que se adeque à minha anatomia e
observo incrédulo sua alvura e potência.
Quero provar, mas tenho medo de que se acabe.
Toco-lhe com a ponta do polegar úmido e preciso na língua...
(im)ponho-me o sabor.
Sinto seu gosto ácido, doce, rascante, ígneo, amargo, nuance e olorífero.
Quero sentir-lhe este olor... mergulhar em seu perfume. Quero seu cheiro.
Cheiro.
É mágico.
Sinto-me em cada lugar... vejo-me atemporal...
Concentro-me em meu nariz obstruído pela estesia que compromete minha fala, e me ponho em silêncio... um silêncio que me conecta, que me torna íntimo.
E não há mais nada.
Só meu prazer...
A composição artificial que me faz encontrar meu estado natural parece infinita, até que eu acorde... até que eu me ressirva.
12 de nov. de 2011
Cafuné
Era tão bom estar triste e correr ao seu colo.
Todas as vezes que me ocorria uma lágrima na garganta pensava no seu cheiro e no seu querer-me por perto. Se me via flébil em um canto, você catava-me sujo de tristeza e me punha a experimentar da tua atenção. Confesso que estive por muito tempo me entristecendo e amuando de propósito, só para ter um momento silencioso do que havia de melhor no mundo inteiro: seu colo e seu cafuné.
Nunca pensei que existisse algum outro lugar tão reconfortante e afável... tão perfeitamente infalível...
Sentir seus dedinhos passando pela cabeça, circulando as têmporas e enganchando e puxando de leve meus cachos crespos, secando minhas lágrimas com cuidado, fazia-me querer adormecer por mil anos ali... quietinho... sem mais nada.
Agora estou triste. De verdade. Sem querer...
e seu cafuné está tão distante de mim que cada esforço que faço pra me livrar da mágoa que me assola é um convite ao choro aparentemente interminável.
Quisera ter experimentado seu colo de outro jeito. Feliz. Pudera ter sido capturado pelos seus braços longos no meio de uma brincadeira ou de um livro, só para sentir a força do seu carinho me dizendo que ele não era apenas um remédio, mas também um mérito... uma doce sobremesa. Teria sido tão maravilhoso sentir seus dedinhos passando pela cabeça, circulando as têmporas e enganchando e puxando de leve meus cachos crespos, brincando com meu sorriso, mexendo na minha careta, fazendo-me querer adormecer por mil anos ali... quietinho... sem mais nada.
Fetiche
... então, ela sempre foi o fetiche da outra.
não era bonita, nem feia. era alta, mas nem tanto, suas pernas eram lisas e seus ombros retos. não havia absolutamente magreza, tampouco o excesso do contrário. ela era completamente normal e correta... e isso era o fetiche.
a outra, que lhe desejava porque sim, que se encantava com a sua normalidade e correção, não se fazia discreta ou procurava nuancear seus desejos. era ela toda insinuação. o que tornava qualquer situação em que estavam as duas de leitura completamente metafórica.
aquela, que era o fetiche, notava os gestos, os olhares, os sorrisos, tudo... mas as falas... ah, as falas! notava-as com grande agonia. cada dito que a outra proferia-lhe era como um feitiço. sentia-se inteira cortejada, mas negava concordar seus gestos com os da outra... e então a vida ia assim: uma querendo, olhando, sorrindo, falando, fazendo tudo para persuadir; a outra, olhada, sorrida, enfeitiçada, correta demais para entregar-se ao que desconhecia...
até que houve.
não há a precisão de detalhes, pois na verdade o que houve, houve em tão Maravilhosos sigilo e correção que não sei bem localizá-lo em uma dêixis inteligível... mas basta saber que houve. e tendo havido, eram as duas outras e diferentes.
a uma - que era o desejo; que não era bonita, nem feia; que era alta, mas nem tanto; que tinha as pernas lisas e os ombros retos; que não era absolutamente magra, tampouco o excesso do contrário - não se sentia mais normal e correta. era melhor do que isso! não que sê-lo fosse excelente, mas sua nova estação, sem dúvida, parecia-lhe melhor, mais florida, mais destacada, mais antônima. sentia-se feliz em epitetar-se anormal e incorreta. e isso só pode ser bom.
mas a outra... a outra que tivera o fetiche, passou a tentar resgatar algo que definitivamente perdera como objeto-valor. começou assim, querer incessante e loucamente reencontrar o que de normalidade e correção já não possuía mais... pois já não existe mais, por sua culpa e sua presença, na essência da uma. a anormalidade não lhe parecia excelente... e para ela, isso não pode ser bom.
4 de nov. de 2011
A flor da Pele
Por uma estrada longa e quase inteiramente deserta andavam aqueles dois embriagados. De um lado, dezenas de árvores enfileiradas com suas copas altas e densas cortinas de cipó; do outro, algo como o mar: grande, azulado, inquieto e recalcitrante em pequenas ondas. Mas nada disso parecia haver ali realmente. Os dois, bêbados de tudo, vinham felizes e falantes de suas vidas... caminhavam falando-se a si e ao mundo, e cada novo assunto começado terminava sempre, sem que ou porque, no tema do amor.
Um dizia efemérides vividas e ria encorpadas gargalhadas quando olhava para o outro. O outro contava coisas do fundo do peito e lacrimejavam-lhe os olhos risonhos em razão da graça feita pelo um. Eram lindos os amigos e ébrios os seus passos pela quase infinita estrada deserta.
Quarenta minutos de tortos passos lentos e observadores, ambos perceberam-se completamente sós. O vento que vinha sudoeste indicava uma chuva iminente, e as nuvens escondendo o sol corroboravam bastante argumentativas a esta tal suspeita.
E mais ninguém passava por ali.
Estar metabolicamente alterado por compostos químicos, na maior parte das vezes, torna o corpo mais flutuante e leva a mente infinita... Assim, um percebeu-se calado enquanto olhava encantado para o sorriso do outro. Era um sorriso jamais visto ali... Este que sorria não encolheu seus lábios ao ver-se observado, e em vez disso, alargou a felicidade no rosto desgastado pelos efeitos narcóticos. Era como se ser visto sorrindo fosse o único texto possível dentro daquele diálogo agora silencioso. Mas, sustentar toda a conversa com o sorriso, sendo apenas aquele que é observado durou pouco ao outro.
Quando compreendeu com clareza que aqueles olhos brilhantes e aquáticos olhavam-no sorrir, sem sequer sentirem vontade de desviarem-se do foco, este um pode ver quão magnificamente belo era aquele olhar admirado e o manteve, o quanto foi capaz, fitado em si, com medo de perdê-lo para a paisagem.
Passaram-se horas... ou minutos.
Estavam os dois, novamente falantes de tudo o que é bobo e largamente encantados com o lindo outro que viam.
Antes de chegarem ali coisas normais aconteceram. Um vinha de um dia previsível de trabalho burocrático e disfuncional, de um terno retangular que lhe cobria a criatividade. Já o outro, dormira por todo o tempo preenchendo sobre o travesseiro o seu último dia de férias. Como sair da normalidade é sempre a melhor razão para a embriaguez, tanto um quanto o outro perceberam-se as melhores companhias e chafurdaram-se nos sintéticos, sólidos e líquidos, até sublimarem... até perceberem-se olhando-se e sorrindo-se simultâneos.
Quase no fim, a estrada já se mostrava querendo deixar seu deserto. Era possível ver luzículas em postes e prédios a uns dois quilômetros. A chuva caía fina e obstrutiva, como que tornando oblíqua a visão do entorno na direção dos dois... a chuva parecia protegê-los do mundo que começava a aparecer ao longe. Foi quando um olhou sério e repentinamente, cerrando os olhos, à boca agora inexpressiva do outro. E o outro, que não sorriu para tentar dialogar com o olhar lançado a si, trouxe de sua boca para os seus olhos o foco do olhar do um.
Era um silêncio frio.
Não havia passos. Só a chuva e os dois.
E tudo o que parecia tempo estava definitivamente parado, bêbado, mais flutuante e infinito...
30 de out. de 2011
3E6G0O
então, pareceu urgente achar o caminho para mim.
andei, andei. andei e vi.
vi que aquilo que era eu não era.
sofri,
lutei,
entristeci-me
com aquele eu que não me era de verdade.
observar-me essencialmente fez-me ver de outra forma
a mim e ao outro.
então veio (-me) a possibilidade do novo.
a realidade do novo.
o novo que sempre esteve lá!
mas que é recente.
pensar em mim é pensar no novo,
é querer cada vez mais ter-me a mim,
enquanto eu mesmo,
percebendo-me de mentira,
para poder, em compreendendo-me,
fazer parte do outro... do novo.
29 de out. de 2011
A saudade
Sempre que era deixada para trás, Maria Rita sentia-se (.) só. Mas ao contrário de reagir, porque a reação exige coragem, resignava-se. Só.
Viu um amor sair pela porta sem se despedir; ouviu um outro deixá-la sob dois adeus e nada mais. Sentiu sôfrega o cheiro do bilhete sobre o travesseiro daquele homem que não voltaria a ver. Mas nunca não foi deixada como não foi deixada desta vez.
Surpresa por não ser obrigada a não experimentar mais da saliva e do suor desse novo amor, e atônita por ver-se revendo e tocando o seu toque liso, Maria não se sentiu só depois do adeus carregado de até logo. Sentiu outra coisa. E sentindo, resignou-se e observou-se nova e transformada.
Da cama em que estava, levantou-se e foi para a cadeira da varanda. Lá estava mais claro. Era de luz que precisava. Nua e sentada sem desleixo ou receio, percebeu-se imediatamente imanente. Ela conseguia ser tudo sem sequer tocá-lo. Inflou-se imensa sem mudar de tamanho... a sensação era de dormência: lábios, dedos, espinha. Tudo não tinha. Sentiu-se exangue e corada, pulsante e parada. Por um momento impressionou-se com a vontade de gritar duas mil palavras que a engasgavam ao nível da glote, mas depois, trouxe-as todas à ponta da língua, sem que as deixasse escapar, e ruminou.
Então começou a estranhar-se. E não conseguiu conter ou evitar o epidérmico estertor... o processo de entranhamento. O que a preenchia fisicamente era cada vez menos sua musculatura e cada vez mais um líquido claro, aquoso e enzimático que fluía livre, levando em sua síntese algo diferente da melancolia. Um líquido capaz de transportar pensamentos. E em trinta minutos era toda ela líquido. Líquida e transparente.
Latente pensamento aquoso que se tornara, gostou de lembrar dos momentos de amor róseos pelos quais havia passado com este seu novo um. Sorriu líquida, chorou fluida, e moveu-se ondulada. Era já incontrolável a vontade de ser isso em que se transformava. A agitação fazia-a ferver e o calor começava a evaporá-la.
Lembrou-se da última hora. Vieram-lhe o último carinho, o último abraço, o último olhar azul, o último beijo. E borbulhava em pensar que não lhes eram absolutamente os últimos. Sentiu falta de tudo... da voz, do cheiro, do jeito, do sexo, do riso... do íntimo. Viu-se vapor.
Era uma imagem linda.
Na varanda, não havia mais a água que fora, apenas a nuvem em que se metamorfoseara Maria Rita voava gasosa pelos objetos e tocava, leve e ainda pensamento, o concreto e o invisível.
O estado vaporoso da moça era tão belamente insólito e ágil que não lhe havia a possibilidade de manter-se nuvem e, condensando, choveu. Aquela bela mulher, fisicamente nublada por uma incontrolável vontade de ser, chovia, entre relâmpagos e trovões ensurdecedores, um devastador temporal dentro da varanda, inundando todos os móveis e o chão com algo que não era água. Aquilo que Maria chovia não era – ! – e nem parecia em nenhuma medida algo líquido. A condensação transformava-a em uma substância intermediária ao gás e à luz.
Era incrível!
A nuvem, cada vez mais rara, dava lugar a um gás luminoso que se lhe caía violento sobre a cadeira e o piso, ricocheteava pelas paredes, resvalando nos vidros da janela e retornava circular. E esse gás-luz que se presentificava explosivamente abstrato era, ainda e certamente, Maria Rita em síntese. Era possível senti-la em movimento.
Era óbvio.
Sentir-se viva, estar-se querida... ver-se apaixonada, era novo. Perceber-se amada e sentir-se só, mas absolutamente vestida de um adeus triste, trouxe-lhe algo que gostava de ser sentindo. A água, o vapor, a nuvem, a chuva luminosa que fora fugazmente Maria Rita, era agora um boreal pensamento. Maria Rita, sintética e absoluta, era inteiramente a saudade...
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