... então, ela sempre foi o fetiche da outra.
não era bonita, nem feia. era alta, mas nem tanto, suas pernas eram lisas e seus ombros retos. não havia absolutamente magreza, tampouco o excesso do contrário. ela era completamente normal e correta... e isso era o fetiche.
a outra, que lhe desejava porque sim, que se encantava com a sua normalidade e correção, não se fazia discreta ou procurava nuancear seus desejos. era ela toda insinuação. o que tornava qualquer situação em que estavam as duas de leitura completamente metafórica.
aquela, que era o fetiche, notava os gestos, os olhares, os sorrisos, tudo... mas as falas... ah, as falas! notava-as com grande agonia. cada dito que a outra proferia-lhe era como um feitiço. sentia-se inteira cortejada, mas negava concordar seus gestos com os da outra... e então a vida ia assim: uma querendo, olhando, sorrindo, falando, fazendo tudo para persuadir; a outra, olhada, sorrida, enfeitiçada, correta demais para entregar-se ao que desconhecia...
até que houve.
não há a precisão de detalhes, pois na verdade o que houve, houve em tão Maravilhosos sigilo e correção que não sei bem localizá-lo em uma dêixis inteligível... mas basta saber que houve. e tendo havido, eram as duas outras e diferentes.
a uma - que era o desejo; que não era bonita, nem feia; que era alta, mas nem tanto; que tinha as pernas lisas e os ombros retos; que não era absolutamente magra, tampouco o excesso do contrário - não se sentia mais normal e correta. era melhor do que isso! não que sê-lo fosse excelente, mas sua nova estação, sem dúvida, parecia-lhe melhor, mais florida, mais destacada, mais antônima. sentia-se feliz em epitetar-se anormal e incorreta. e isso só pode ser bom.
mas a outra... a outra que tivera o fetiche, passou a tentar resgatar algo que definitivamente perdera como objeto-valor. começou assim, querer incessante e loucamente reencontrar o que de normalidade e correção já não possuía mais... pois já não existe mais, por sua culpa e sua presença, na essência da uma. a anormalidade não lhe parecia excelente... e para ela, isso não pode ser bom.
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