18 de jan. de 2012

Aspecto

foi de repente.
um dia acordei e vi que tinham levado embora, para longe mim, o meu futuro.
atordoei-me enlouquecido segurando firme em uma das mãos um passado imenso e encardido com o cheiro impreciso de memória, tentando suster na outra a pequena fumaça colorida e impalpável do presente que me fugia.
o que fiz foi chorar e querer.
decidi abjurar.
fui largando pelo chão o passado grudento e de mil aromas que parecia sorrir e chorar enquanto caía despedaçado. doía o peito e a cabeça rodava e eu só podia pensar no que não tinha mais comigo... um lindo futuro... cheio de cores e inodoro... leve.
sofri ao pensar que tomaram-me algo que desconhecia. algo que queria que fosse. o ainda-a-ser.
mas, de pés, segurando incerto apenas o presente nublado sobre a destra, olhei ao meu redor e vi o quão colorido e de aromas sutis tornava-se aquele meu passado, esparramado sobre o piso, que agora já não me possuía para si.
compreendi que fora um futuro cansado e estatizado pela memória, e decidido pelo presente.
realizar-me estado sem meu futuro e abjurado de propósito do meu passado fez-me querer segurar mais forte o presente que, levado, me foge a todo momento.
o presente... que é o que acredito ter agora.
o pequeno, incerto e monolorífero presente que me enche a mão de nada.

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