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Cansado de estar na clausura do lar, arruei-me para ver como estava a cor do mundo naquela tarde.
Queria ver gentes diversas. Esperava por ver belezas e feiuras; uns e outros; graças e desgraças.
Quando se sai esperando qualquer coisa, tudo parece suficiente.
Pensei que todos ali estavam tão acostumados à normalidade de seus hábitos retangulares, e vi que nada naquela quadradez mundana fazia sentido, que resolvi circularizar.
Enlouqueci aquela tarde.
Despi-me ligeiro.
Descabelei.
Libertei os pensamentos todos.
...
Libertar os pensamentos me fez ver que não havia necessidade de despir e descabelar meu corpo.
...
Retomei a roupa, ajeitei os cabelos e saí com a voz enlouquecida.
Percebi que o louco está na voz.
É delicioso poder enlouquecer. Os olhares te tocam medrosos; os risos debochados viram "debochosos"; Pode-se tudo.
Gritei, chorei, fiz declarações de amor e ódio, protestei, rezei, e ninguém me viu.
Se cansa, deita no chão.
Se quer, pede.
Se é, basta.
Então, depois de um dia inteiro, estafado pela loucura, calei-me. Tomei o caminho de volta para casa completamente são.
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