Sempre que era deixada para trás, Maria Rita sentia-se (.) só. Mas ao contrário de reagir, porque a reação exige coragem, resignava-se. Só.
Viu um amor sair pela porta sem se despedir; ouviu um outro deixá-la sob dois adeus e nada mais. Sentiu sôfrega o cheiro do bilhete sobre o travesseiro daquele homem que não voltaria a ver. Mas nunca não foi deixada como não foi deixada desta vez.
Surpresa por não ser obrigada a não experimentar mais da saliva e do suor desse novo amor, e atônita por ver-se revendo e tocando o seu toque liso, Maria não se sentiu só depois do adeus carregado de até logo. Sentiu outra coisa. E sentindo, resignou-se e observou-se nova e transformada.
Da cama em que estava, levantou-se e foi para a cadeira da varanda. Lá estava mais claro. Era de luz que precisava. Nua e sentada sem desleixo ou receio, percebeu-se imediatamente imanente. Ela conseguia ser tudo sem sequer tocá-lo. Inflou-se imensa sem mudar de tamanho... a sensação era de dormência: lábios, dedos, espinha. Tudo não tinha. Sentiu-se exangue e corada, pulsante e parada. Por um momento impressionou-se com a vontade de gritar duas mil palavras que a engasgavam ao nível da glote, mas depois, trouxe-as todas à ponta da língua, sem que as deixasse escapar, e ruminou.
Então começou a estranhar-se. E não conseguiu conter ou evitar o epidérmico estertor... o processo de entranhamento. O que a preenchia fisicamente era cada vez menos sua musculatura e cada vez mais um líquido claro, aquoso e enzimático que fluía livre, levando em sua síntese algo diferente da melancolia. Um líquido capaz de transportar pensamentos. E em trinta minutos era toda ela líquido. Líquida e transparente.
Latente pensamento aquoso que se tornara, gostou de lembrar dos momentos de amor róseos pelos quais havia passado com este seu novo um. Sorriu líquida, chorou fluida, e moveu-se ondulada. Era já incontrolável a vontade de ser isso em que se transformava. A agitação fazia-a ferver e o calor começava a evaporá-la.
Lembrou-se da última hora. Vieram-lhe o último carinho, o último abraço, o último olhar azul, o último beijo. E borbulhava em pensar que não lhes eram absolutamente os últimos. Sentiu falta de tudo... da voz, do cheiro, do jeito, do sexo, do riso... do íntimo. Viu-se vapor.
Era uma imagem linda.
Na varanda, não havia mais a água que fora, apenas a nuvem em que se metamorfoseara Maria Rita voava gasosa pelos objetos e tocava, leve e ainda pensamento, o concreto e o invisível.
O estado vaporoso da moça era tão belamente insólito e ágil que não lhe havia a possibilidade de manter-se nuvem e, condensando, choveu. Aquela bela mulher, fisicamente nublada por uma incontrolável vontade de ser, chovia, entre relâmpagos e trovões ensurdecedores, um devastador temporal dentro da varanda, inundando todos os móveis e o chão com algo que não era água. Aquilo que Maria chovia não era – ! – e nem parecia em nenhuma medida algo líquido. A condensação transformava-a em uma substância intermediária ao gás e à luz.
Era incrível!
A nuvem, cada vez mais rara, dava lugar a um gás luminoso que se lhe caía violento sobre a cadeira e o piso, ricocheteava pelas paredes, resvalando nos vidros da janela e retornava circular. E esse gás-luz que se presentificava explosivamente abstrato era, ainda e certamente, Maria Rita em síntese. Era possível senti-la em movimento.
Era óbvio.
Sentir-se viva, estar-se querida... ver-se apaixonada, era novo. Perceber-se amada e sentir-se só, mas absolutamente vestida de um adeus triste, trouxe-lhe algo que gostava de ser sentindo. A água, o vapor, a nuvem, a chuva luminosa que fora fugazmente Maria Rita, era agora um boreal pensamento. Maria Rita, sintética e absoluta, era inteiramente a saudade...
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