A tristeza é sintética.” (Anônimo).
Sei que tenho sido muito melancólico ultimamente, mas... é que sinto assim. É que sinto vontade de confessar... foi mesmo outro dia, quando me enfiei dentro da vida de uma mulher que vinha andando em minha direção. Só pude ver. Ao me dar conta já estava dentro de sua vida. A emoção, que só nos desalmados tem consistência, me apanha para dentro deles e não consigo mais estar em mim.
Ela vinha formidavelmente desenxabida em torno de suas arrogantes proporções físicas. Eu não sabia se carregava qualquer sentimento depressivo em seu coraçãozinho ou se aquele olhar era mera alheia às coisas do mundo. Isso me tomou. A curiosidade em senti-la de perto... de dentro, moveu-me. Sobre seu andar difícil, que parecia fazer doer seu corpo, a mocinha não notara, mas se aproximava de mim... Até que me doei à crase. Mergulhei em sua cabisbaixisse, refestelando-me em todo o seu desolado ser.
“O som que sua fleuma flauteava era constante , e, não obstante, enleava-a numa seqüência de notas flébeis: notas que compunham a partitura implexa de uma infinitude padecente.” Não fosse esta linguagem poética a que me refiro – grande pretensão dum doente acometido pelo mal da melancolia – não creio que pudesse ver beleza nesta dama. E chamo-na dama menos por costume e mais por reverência. Ela que vinha... e, ao encontro dela que fui, permiti-me repousar precisamente num átrio seu.
Antes, do seu lado de fora de ser, estava tudo mais quente e em movimento. No entanto, dentro, senti-me num claustro enregelante e magnificamente escuro. Pacífico. Eram graves as relevantes depressões e acutíssimas as estalactites que desenhavam com uma graça bruta a caverna de seu coração. Descobri que não era por falta de amores ou por feridas de excessos que se lhe era mal e dolorido o peito. Seu desalento era produto do reflexo. Pois era imensa e incompleta, e para remediar essa sua incompletude só a comida. O exagero fazia bastar-se-lhe pelos poucos instantes de devoração, aí então, retornava ao vazio da alma, aguardando o próximo banquete.
Seus olhinhos eram sempre marejados e seus movimentos contidos, e eu, em seu coração, mal me movia, só para não despertá-la de sua interioridade. Os sentimentos lacrimantes que nos enfraquecem nos mantêm mais em nós mesmos. Uma característica egocêntrica do ser: “O homem aflito é um tanto egoísta”. Mas... não sei o que houve, ou se já vinha havendo, vi que em alguma hora ela desistira de comer... Eu passei a não mais ver de dentro, os movimentos digestivos ansiosos e frêmitos que descaracterizavam e extrovertiam a ausência do espírito e faziam valer com gozo o mastigar.
A rejeição ao alimento ia direcionando-a aos poucos mais para perto da sua melancolia... e assim, ela caminhava também, para cada vez mais perto de mim. Descobrir-me-ia dentro do peito! Então eu teria de fugir para não me deixar capturar!
Mas antes que isso fosse possível ela me viu.
Surpreendente foi o modo como reagiu e me tratou. Em me ver, afeiçoara-se de súbito, decidindo, portanto não me deixar sair.
Por mais fascinante que aquele sagrado claustro cheio de vida concentrada em torno de músculos cardíacos fosse, passou a ser indefinível o sentimento que me mantinha ali. Uma cadeia de condicionamentos pragmáticos embaralhava outra gama de sentimentos e aquele que me apetecia era já esvaído. Não comia, pois minha presença a completava; sua inanição era justamente o meio de contato entre nós; e a melancolia que nutria nas horas de intervalo entre um pão e outro era agora outra coisa. Era amor.
Sentindo que não era só, ela agora tecia longos discursos ontológicos e essenciais. Monólogos autobiográficos bordados com grossas linhas duma amargura gris... Em pouquíssimo tempo ela recuperava-se de si. Ainda não comia, mas seus olhos nebulosos e sombrios de dor de falta eram diferentes, já haviam assumido cor. Percebi que eu lhe fazia bem, mas não mais me sentia completo naquele templo pulsante de sangue, agora mais arterial que venoso. Mas fugir dali tornara-se impossível. Em tudo ela me prendia. Toda a sua atenção me mantinha atido àquele organismo cada vez menor.
Foi então que me apareceu a saída: enquanto ela falava sobre o inacreditável sair de si, consegui readquirir o controle e fugi através de sua respiração. Ela não me pôde deter. Caí com força no chão do lado de fora de seu corpo. Pude perceber em seus olhos umas veias de loucura. Sem norte, ela não mais via sentido nas as palavras que proferia. E eu, caído em sua frente, vi quando, ainda falando consigo sobre o inacreditável sair de si, ela percebeu que eu lhe faltava. Julguei que a saída lhe foi adquirir certo descontrole. No instante seguinte a vi desaparecer. Como se desaparece no vácuo.
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