1 de set. de 2011

Noite Canalha

- Alô?
- Oi Sirene? Você tá onde?
- Tô no cinco meia sete, indo pra casa.
- Fica esperta que meia noite a polícia vai tomar o morro.
- Qual?
- Na cidade.
- Falta meia hora. Dá tempo.
- Tá doida? Corre pra casa.
- Não moro no morro não, minha filha!
- Avisei.
Tá bom, Justa.
- Não fica de lerdeza na rua não!
- Tá bom.

O que era aquilo? Para que se alarmar? A cidade está perigosa, mas nem tanto. Nada de preocupação. Em pouco tempo Sirene estaria em casa e segura. – Mas Justa não mentiria para mim, não a essa hora, tarde... Inda mais de celular... custa caro!
A condução demorava no trajeto. A avenida principal engarrafava, ali, com dez ônibus. – ...muito de noite pra trânsito aqui! É polícia?
Bang!
- Ai! É tiro!
- Calma, dona. Não é não! Levanta... Caiu a placa. Deve ser a Defesa arrumando o sinal.
- Ah... bem...
- Sei. Deixa eu ajudar.... Tá doideira morar no morro, qualquer coisinha, e, é tiro, né?
- Não sei.
- ... não?
- moro no Bairro.
- Ah.
- ... é que minha irmã me ligou agora e disse que vai ter coisa da polícia com os traficantes. Igual teve outro dia numa cidade aí. Morreu foi gente.
- Eu sei. Vi no repórter. Mas hoje vai ser que nem foi lá? Vai ter igual aqui na cidade?
- Foi o que a minha irmã disse.
- Caramba!
- Isso tudo deixa a gente com medo, né?
- Ixe!
- Ó! Meu ponto.

Quase meia noite. Ainda uns vinte minutos. Estava tudo aparentemente da mesma forma. Sirene desceu do ônibus e rapidamente correu a atravessar a rua. Se conseguisse, com sorte, chegaria a casa em trinta minutos.
Seus passos apressados machucavam os pequenos pés e ela ainda vinha carregando uma  dezena de bolsas. Os olhos bem atentos observavam as poucas pessoas que passavam na calçada, provavelmente à procura de suas casas. ¾ ...mas que idéia, mulher! Como a Justa ia saber de “ataque de polícia?!”. Tá ficando louca?... Ô raio! “Que” não chego em casa. Que rua que não tem gente...
Enquanto entretecia motivos que a faziam desesperar, o caminho ficava cada vez mais deserto [natural] e até um carro da polícia passou com o alarme ligado e buzinando:

- ô Madame, a senhora tá indo pra casa?
- To sim senhor.
- ...carona?
- Não. Agradecida.
- É perigoso uma senhora ficar andando por aí sozinha a essa hora.
- Eu sei seu polícia. Mas eu to perto de casa. E...
Bum!
- Ai! É tiro!
- Puta merda! ...Calma, senhora! Foi a porta que bateu... “bateu aí Figueira?”
... ai, ai...
- Pode levantar senhora. O chão tá molhado. Quer ajuda?
- não... ah... Eu sei! É que, a cidade... tá meio ruim... é meio ruim ficar andando sozinha de noite.
- Entra no carro. A gente leva a senhora até sua residência.
- Não, brigada.
- Então se “apressa”.

Não havia motivos para preocupações. Mais cinco minutos e “Pam!” foram-se o carro da polícia e um motoqueiro que voava moto afora e acima, quase provocando uma violenta colisão, sumindo de vista. Sirene virava à esquina. – Meu Deus! Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro... meu São Judas Tadeu! Me protege! Meu anjo da guarda... é sinal! É sinal pra eu não pegar mais esse turno da noite. O Euzébio vive falando... – dois minutos e quase no portão. Havia àquela hora, não se sabe o porquê, uma interdição no atalho de Sirene -... só coisa da Prefeitura pra colocar barreira no caminho das pessoas! Agora eu tenho que pegar a Principal. Meu senhor... vai demorar!
Talvez não fosse demorar tanto assim. Possivelmente mais oito ou dez minutos. E quem sabe se, a passos largos, a despeito das pernas curtas, seis minutos!
Era o caminho interminável. As pernas iam se entrecruzando espaçando. Quatro, três, novamente dois minutos. Pronto. E estava ela enfim. Segura do lado de dentro de seu portão, quase dentro de casa. Parou. Agradeceu a Deus e aos seus santos de devoção, pegou o terço e...
Beng! Paf!
Caiu morta, Sirene. Com um tiro na nuca.
! Anda mesmo um tanto violenta a cidade grande.

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