4 de nov. de 2011

A flor da Pele

Por uma estrada longa e quase inteiramente deserta andavam aqueles dois embriagados. De um lado, dezenas de árvores enfileiradas com suas copas altas e densas cortinas de cipó; do outro, algo como o mar: grande, azulado, inquieto e recalcitrante em pequenas ondas. Mas nada disso parecia haver ali realmente. Os dois, bêbados de tudo, vinham felizes e falantes de suas vidas... caminhavam falando-se a si e ao mundo, e cada novo assunto começado terminava sempre, sem que ou porque, no tema do amor.
Um dizia efemérides vividas e ria encorpadas gargalhadas quando olhava para o outro. O outro contava coisas do fundo do peito e lacrimejavam-lhe os olhos risonhos em razão da graça feita pelo um. Eram lindos os amigos e ébrios os seus passos pela quase infinita estrada deserta.
Quarenta minutos de tortos passos lentos e observadores, ambos perceberam-se completamente sós. O vento que vinha sudoeste indicava uma chuva iminente, e as nuvens escondendo o sol corroboravam bastante argumentativas a esta tal suspeita.
E mais ninguém passava por ali.
Estar metabolicamente alterado por compostos químicos, na maior parte das vezes, torna o corpo mais flutuante e leva a mente infinita... Assim, um percebeu-se calado enquanto olhava encantado para o sorriso do outro. Era um sorriso jamais visto ali... Este que sorria não encolheu seus lábios ao ver-se observado, e em vez disso, alargou a felicidade no rosto desgastado pelos efeitos narcóticos. Era como se ser visto sorrindo fosse o único texto possível dentro daquele diálogo agora silencioso. Mas, sustentar toda a conversa com o sorriso, sendo apenas aquele que é observado durou pouco ao outro.
Quando compreendeu com clareza que aqueles olhos brilhantes e aquáticos olhavam-no sorrir, sem sequer sentirem vontade de desviarem-se do foco, este um pode ver quão magnificamente belo era aquele olhar admirado e o manteve, o quanto foi capaz, fitado em si, com medo de perdê-lo para a paisagem.
Passaram-se horas... ou minutos.
Estavam os dois, novamente falantes de tudo o que é bobo e largamente encantados com o lindo outro que viam.
Antes de chegarem ali coisas normais aconteceram. Um vinha de um dia previsível de trabalho burocrático e disfuncional, de um terno retangular que lhe cobria a criatividade. Já o outro, dormira por todo o tempo preenchendo sobre o travesseiro o seu último dia de férias. Como sair da normalidade é sempre a melhor razão para a embriaguez, tanto um quanto o outro perceberam-se as melhores companhias e chafurdaram-se nos sintéticos, sólidos e líquidos, até sublimarem... até perceberem-se olhando-se e sorrindo-se simultâneos.
Quase no fim, a estrada já se mostrava querendo deixar seu deserto. Era possível ver luzículas em postes e prédios a uns dois quilômetros. A chuva caía fina e obstrutiva, como que tornando oblíqua a visão do entorno na direção dos dois... a chuva parecia protegê-los do mundo que começava a aparecer ao longe. Foi quando um olhou sério e repentinamente, cerrando os olhos, à boca agora inexpressiva do outro. E o outro, que não sorriu para tentar dialogar com o olhar lançado a si, trouxe de sua boca para os seus olhos o foco do olhar do um.
Era um silêncio frio.
Não havia passos. Só a chuva e os dois.
E tudo o que parecia tempo estava definitivamente parado, bêbado, mais flutuante e infinito...

3 comentários:

Anônimo disse...

Adoro reler!

Jaciana Melquiades disse...

Releia... E mostre-se. É mais bonito assim!
.... É mais honesto assim!

Jaciana Melquiades disse...

Releia... E mostre-se. É mais bonito assim!
.... É mais honesto assim!