Estava Senilde correndo, correndo com os afazeres de casa. Muita roupa a passar, muito chão a varrer, e uma criança a alimentar. Sem haver fôlego que resgatasse, em busca do próximo para tornar à tarefa seguinte, sorria sem saída. Tropeçava em seus próprios calcanhares na constante sobreposição de tarefas. Esquentar o feijão, limpar a fralda, tirar o pó, coser o botão, assistir à tevê, mascar a folha de espinheira santa para o problema de fígado, lavar a louça... respirar. Continuar. Era tudo ininterrupto.
O marido há essas horas ripava e torcia na fábrica, toneladas de metal. Devia já estar faminto. E Senilde, rotineira, corria e corria a preparar a marmita do esposo.
Não era tarefa fácil organizar o alimento dentro do recipiente de alumínio. João era homem criterioso e exigente, e comer comida mal arrumada causava-lhe mau humor. E em favor do bem estar do marido, a mulher preocupava-se em construir a mais bem feita marmita de todas.
Nada de muito, tampouco muito pouco. João era homem comedido e econômico, “comida demais é pecado e encarece”. Seu sonho em ser burguês revelava na marmita apenas um detalhe provisório. Por isso vinha, em supressão a essa vaidade, muito bem arrumada.
A composição da marmita era de fato o momento de maior tensão de Senilde: momento de agradar o marido e ensaiar para um dia aprontar o “prato principal”.
Depois de preparada a gastronômica obra de arte, com folhas, molhos e bifes coloridos em ordem, era a hora de entregar para João o seu almoço. Da cozinha da casa se fazia possível ouvir o sinal de aviso aos trabalhadores da fábrica. A mulher em tirar o avental, espanar seu vestido e seguir sobre saltos, ajeitando os cabelos, sentia um ligeiro frenesi, um arrepiar de pêlos eriçados em sutis tremeliques de seus ombros. Em poucos minutos chegava à fabrica. Alinhada.
Os portões abertos eram lentamente invadidos por doninhas de casa ora contentes e orgulhosas, ora intatas pelo prazer de servirem aos maridos. Que iam. Senilde não mais se apressava. Punha pé ante pé caminhando e sempre adiantando a si, muito bem visível, a marmita do marido. Percebia o quanto eram desgrenhadas as esposas que seguiam à sua frente, e fazia questão de se mostrar diferente Sua vaidade era sempre comparar-se àquelas satisfeitas com suas condições e perceber que lhas era de alguma forma tanto superior.
Devaneava, sorria excelente, deslumbrava...
Quase no refeitório Senilde lembrava-se: havia esquecido o filho dormido perto do fogão de forno aceso. Naquele momento a excitação costumeira tornava-se diferente, e tanto, que quedara aluada. Perplexa.
Tomada por um impetuoso amor contornou em desespero o caminho, balançando tonta a marmita em suas mãos. Não era longo o trajeto de volta à sua casa, mas naquele momento pareceu. Embora nenhum empecilho a tivesse detido, eram passos largos que a agigantavam independentemente. Pulsava forte seu coração. Chegava enfim.
A lenha do fogão não se havia alterado. O nenê ainda cochilava na cadeirinha perto do forno braseiro, inofensivo...
Pausava respirada.
Ajeitou.
Voltava então depressa, depressa à fábrica. Seu marido ainda não almoçara. Não havia tempo de se recompor. Na brevidade do caminhozinho ela procurava a compostura perdida pelo afoite. Encontrou somente na porta do refeitório o homem enfurecido e faminto.
Foi ao seu encontro figurando um sorriso tenso, afinal João não merecia preocupar-se com coisas não acontecidas, preferiu guardar consigo o susto e sorrir ao marido. O homem, agradecido entre dentes, foi sentar-se para comer e a mulher se punha a aguardar ao lado de fora até que ele terminasse e lhe devolvesse a marmita.
Antes de conseguir encostar-se a um dos bancos do pátio junto às outras esposas, Senilde em olhar para trás tornava a ver seu marido regresso de dentro do refeitório soltando em altos golpes de ar a sua ranzinzice. O homem inquestionável parou à porta aceso, mirou a mulher e lançou-lhe a marmita na cabeça, rasgando-lhe a testa. Bradando com uma fúria legitimada: “Para que nunca mais te desleixes à arrumação do prato e nem te esqueças de meus talheres!”.
2 comentários:
um conto terrivelmente perverso
Que marido Ogro! rsrsr
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