4 de jun. de 2007

A deSpedidA

Eu caminhava bem devagar até a porta de casa, para alentar a despedida, e conseguir respirar forçando o freio da lágrima na garganta. Nós estávamos entrelaçados como galhos de videira jovem e caminhávamos com rostos plácidos, quase sorridentes, conversando sobre coisas fugazes, pois ambos sabíamos que em pouquíssimo tempo não teríamos mais um ao outro, e que exprimir esse mal seria admitir uma tristeza que para o momento era a irremediável. No lugar do vazio aparente, o sorriso que mascarava essa dor, vinha repleto dum altruísmo que, só nos apaixonados, se fortalecia com o desejo do não sofrer do outro.

Passamos toda a noite juntos poupando palavras torpes e pulsando de sorrisos e risos com olhares bobos, além de apaixonados. Uma palavra dita inadvertidamente ou um gesto inadequado desfariam a atmosfera ágape que se havia formado, e que já vinha se formando há muito, e não teríamos sido tão felizes como fomos.

A cada passo que dávamos em direção à minha casa, o subterfúgio de parar para vislumbrar o matiz do céu que clareava, e as construções dos sobrados do século retrasado, era mais constante, e, sequer dita uma palavra, os dois rapidamente compreendíamos a sublinha desse admirar do arredor, e com sorrisos complacentes e felizes o fazíamos sem pressa, fingindo inocência e interesse no ficar. O que valia um longo abraço.

Meu coração bombeava mais sangue que o habitual quando pensava que faltavam poucas esquinas até a despedida. Tomamos o caminho mais longo sob o pretexto de mais belo; andamos os passos mais curtos sob o pretexto de ver com mais critério o céu; e sorríamos os sorrisos mais largos sob qualquer pretexto. E mesmo assim não podíamos evitar o último olhar. Eu já avistava a minha portaria da última esquina, e ainda não conseguia acreditar que faltava agora tão pouco. Foi quando parei, e imóvel me mantive, sem abrir meus olhos. Por um segundo pensei que podia parar aquele tempo num abraço que meu braço não soltava, ou num beijo que nossas bocas sôfregas executavam e faziam arfar os corpos, ou mesmo na carícia dos olhos com meus polegares cheios de lágrimas... mas era o fim. Não havia abraço ou beijo ou choro que pudesse empunhar sua intermitência diante daquele tempo maldito!

Choramos como crianças aborrecidas e contraditas com o inexeqüível, mas donas de coisa nenhuma a não ser de deferência a tudo o que lhes é superior por autoridade. Notamos que nada podíamos fazer. Secamos nossas lágrimas; eternizamos no tempo nossas juras de amor infinito; beijamo-nos com um efusivo beijo; trocamos carícias com nossos rostos tocantes e carentes; respiramos o último ar comum num abraço interminável; e despedimo-nos com saudade, sabendo que por mais moroso e penoso que fosse, no dia seguinte nos veríamos novamente, ávidos um pelo outro.

Um comentário:

Adriano disse...

Gostei muito! Indentifiquei=me!