4 de jun. de 2007

fotOGRAfia

Acordou mais cedo hoje e não conseguiu se levantar. Durante a madrugada ele teve um horrível pesadelo e permaneceu mesmo depois de acordado, alucinado com o terror de alguns minutos atrás. Não parecia ser tão irreal todo o momento de desespero pelo qual passou. Sua cama, seu armário, os chinelos desvirados e dispostos contrários à ordem de calçamento sobre o tapetinho azul, tudo estava como havia deixado antes de dormir. Mas ele não parecia ser o mesmo.

A fotografia caída sobre a mesinha ao lado da cama continuava ali. Intacta. E ele não tinha coragem de pô-la de pé. As horas passavam e um sentimento de agonia grudava no quarto sujando as paredes de cinza. Parecia que o pesadelo voltava. A janela se contorcia e aumentava, tomando quatro quintos de toda a parede, e o armário tombava para frente e diminuía para dentro do chão que o sugava com fome emitindo um ruído assustador. As cortinas voavam desesperadamente dançando um balé sombrio e frio, e se arroxeavam e enegreciam numa matização medonha.

Ele tentou se estapear e surrar sua cabeça para acordar, mas o vão dessa atitude causava de forma elementar muito mais dor que lucidez. Os brados agitados de socorro o surpreendiam por não saírem à sua boca. Os gritos mudos se cessavam e suas lágrimas de dor fustigavam seu rosto agredido pelo irreal. O desmaio às portas de seu corpo resistia bravamente deixando a tontura lhe embalar ao vômito iminente que freado à epiglote, se mantinha relutante em não sair.

Essa aflição sem pés e sem sentido, subitamente interrompia sua evolução. E como num desfazer progressivo, criava imageticamente a impressão de um refazer controverso, e ia-se re-arrumando todo caos gradativamente. A janela voltava ao seu tamanho natural; o armário era regurgitado pelo chão e se punha de pé novamente; as cortinas coloriam-se de azul. E tudo voltava ao normal.

Nenhum comentário: